Dá para gostar do Papai Noel?!

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Dá para gostar do Papai Noel?!

Sei que muitos não vão ler este texto.

A leitura tornou-se obsoleta para alguns e exibicionismo para outros.

Coisas de um mundo que se acerta aos poucos.

Eu leio para ser! Ponto final. Mas isso é para outra conversa.

Uma provocação como a do texto do alagoano Aldemar Paiva se faz relevante principalmente nesta época em que as pessoas estão literalmente correndo SEM PARAR E SEM PENSAR.

Com um olhar iconoclasta sobre Papai Noel é inevitável derivar a leitura (e alguma meditação) para uma necessária reflexão a respeito do que o natal realmente significa.

Vale e pena a leitura:

 

 

Eu não gosto de você, Papai Noel!…

Eu não gosto de você, Papai Noel!

Também não gosto desse seu papel

de vender ilusões à burguesia.

Se os garotos humildes da cidade

soubessem do seu ódio à humildade,

jogavam pedra nessa fantasia.

 

Você talvez nem se recorde mais.

Cresci depressa, me tornei rapaz,

sem esquecer, no entanto, o que passou.

Fiz-lhe um bilhete, pedindo um presente

e a noite inteira eu esperei, contente.

Chegou o sol e você não chegou.

 

Dias depois, meu pobre pai, cansado,

trouxe um trenzinho feio, empoeirado,

que me entregou com certa excitação.

Fechou os olhos e balbuciou:

“É pra você, Papai Noel mandou”.

E se esquivou, contendo a emoção.

 

Alegre e inocente nesse caso,

eu pensei que meu bilhete com atraso,

chegara às suas mãos, no fim do mês.

Limpei o trem, dei corda,

ele partiu dando muitas voltas,

meu pai me sorriu e me abraçou pela última vez.

 

O resto eu só pude compreender quando cresci

e comecei a ver todas as coisas com realidade.

Meu pai chegou um dia e disse, a seco:

“Onde é que está aquele seu brinquedo?

Eu vou trocar por outro, na cidade”.

 

Dei-lhe o trenzinho, quase a soluçar

e como quem não quer abandonar

um mimo que nos deu, quem nos quer bem,

disse medroso: “O senhor vai trocar ele?

Eu não quero outro brinquedo, eu quero aquele.

E por favor, não vá levar meu trem”.

 

Meu pai calou-se e pelo rosto veio

descendo um pranto que, eu ainda creio,

tanto e tão santo, só Jesus chorou!

Bateu a porta com muito ruído,

mamãe gritou ele não deu ouvidos,

saiu correndo e nunca mais voltou.

 

Você, Papai Noel, me transformou num homem

que a infância arruinou, sem pai e sem brinquedos.

Afinal, dos seus presentes, não há um que sobre

para a riqueza do menino pobre

que sonha o ano inteiro com o Natal.

 

Meu pobre pai doente, mal vestido,

para não me ver assim desiludido,

comprou por qualquer preço uma ilusão,

e num gesto nobre, humano e decisivo,

foi longe pra trazer-me um lenitivo,

roubando o trem do filho do patrão.

 

Pensei que viajara,

no entanto depois de grande,

minha mãe, em prantos,

contou-me que fôra preso

e como réu, ninguém a absolvê-lo se atrevia.

Foi definhando, até que Deus, um dia,

entrou na cela e o libertou pro céu.

 

Aldemar Paiva

4 thoughts on “Dá para gostar do Papai Noel?!

  1. Como as vezes precisamos de nós sacrificar pela felicidade do próximo. Principalmente sendo um ser filho pequeno e inocente.
    Papai Noel, também não sei se lhe perdoaria.

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